Física Quântica 47 - Análise de um Argumento Místico Quântico

Física Quântica 47 -  Análise de um Argumento Místico Quântico

 Análise de um Argumento Místico Quântico

por Osvaldo Pessoa Jr.

  "O argumento místico quântico associado ao livro O Segredo falha principalmente em dois pontos, que chamamos de tese (2) e (5): mentes humanas não podem se acoplar quanticamente em um estado emaranhado, e mesmo se pudessem, uma não poderia controlar atributos macroscópicos da outra"

Nas últimas décadas, a noção espiritualista de que a física quântica é relevante para a psicologia, medicina, administração de empresas, etc. difundiu-se bastante na mídia, e se tornou popular em diversas comunidades.

Um exemplo bastante radical de tese místico quântica é apresentado no livro e filme O Segredo, que é chamada de “lei de atração”. Essa tese pode ser reconstruída da seguinte maneira.

Ao entrar em contato com outras pessoas ou ambientes, nossa mente pode entrar em um “emaranhamento quântico” com essas outras mentes ou até com objetos. Mesmo após a separação, o estado emaranhado permanece.

Podemos então efetuar uma medição quântica e com isso provocar um colapso não local da onda quântica emaranhada. O resultado disso é a transformação do estado da outra pessoa ou do ambiente.

Dado que na física quântica o observador pode escolher se o fenômeno observado será onda ou partícula, podemos também escolher se o colapso quântico será associado a uma energia positiva ou negativa.

Para isso, é preciso treinar as técnicas de pensamento positivo, divulgadas em diversos livros de autoajuda quântica.

Uma vez que esse segredo é aprendido, pode-se utilizar o pensamento para alterar diretamente a realidade, mesmo à distância, e assim transformar o mundo de uma maneira positiva para nós.

Esse argumento faz uso basicamente de cinco teses:

  1. O cérebro ou a consciência humana é essencialmente quântica.
  2. Duas consciências podem se acoplar quanticamente, em um estado emaranhado, mesmo estando separados a uma grande distância.
  3. O colapso quântico é causado pela tomada de consciência do observador.
  4. No processo de medição, a vontade do experimentador pode escolher se um fenômeno quântico é corpuscular ou ondulatório.
  5. Analogamente, a vontade de um ser humano pode escolher se o outro colapsará para um estado de energia positiva ou negativa.
Dessas teses, a quarta é aceitável, a terceira irrefutável, e a primeira é uma tese empírica, ainda em aberto mas pouco aceita. As teses questionáveis são a segunda e a última.

A tese (2) é justificada argumentando-se que ela explica experimentos de parapsicologia, mas tais experimentos são pouco aceitos na comunidade científica. Já a tese (5) é construída por analogia com a quarta tese, mas tal analogia é falha, conforme explicaremos mais para frente.

Comecemos nossa análise com a tese (3), de que a consciência seria a responsável pelo colapso quântico.

Essa afirmação surgiu na década de 1930, e é a tese central da interpretação “subjetivista” da teoria quântica, proposta por London & Bauer (1939), e que examinamos no texto, “A Consciência Legisladora”.

Apesar de poder parecer estranho atribuir tais poderes para a consciência humana, tal interpretação consegue dar conta de todas as situações experimentais propostas até hoje.

Mesmo sendo apenas uma dentre dezenas de interpretações propostas para a teoria quântica, o seu uso pode ser considerado aceitável no argumento em questão.

Examinemos agora a tese (1), segundo a qual o cérebro humano (ou a consciência humana) é essencialmente quântica.

Já examinamos diversos partidários dessa concepção no texto, “A Consciência é um Fenômeno Quântico?”.

O físico e matemático Roger Penrose e o anestesiologista Stuart Hameroff defendem a tese de que processos essencialmente quânticos, como a manutenção de superposições, ocorreriam dentro de microtúbulos de proteína, presentes em neurônios e em outras células.

Esta proposta tem sido criticada porque o calor dentro do cérebro geraria uma rápida destruição da coerência desse hipotético estado quântico.

Mesmo assim, surgiu recentemente a primeira evidência convincente de processos essencialmente quânticos curtíssimos em biologia, no processo de fotossíntese em certas algas (ver aqui).

Outra proposta que considera que processos quânticos são essenciais para a consciência é a do neurocientista John Eccles, que defendeu que a liberação de neurotransmissores seria um processo probabilístico descrito pela física quântica.

Outra ideia que é frequentemente citada é a tese de que um fenômeno quântico semelhante à “condensação de Bose-Einstein” poderia ocorrer no cérebro, conforme proposto por Herbert Fröhlich (1968).

E, por fim, podemos mencionar uma abordagem iniciada por físicos teóricos no final da década de 60, em torno de Hiroomi Umezawa, que procura descrever o cérebro com o ferramental da “teoria quântica de campos”.

Que conclusões se podem tirar dessas propostas? Nenhuma delas é bem aceita na comunidade científica, mas o problema de se a consciência é um fenômeno essencialmente quântico ainda está em aberto.

Trata-se de uma questão empírica, a ser decidida a partir de experimentos e observações.

Mesmo que não se tenha muitas expectativas de que esta tese seja correta, pode-se ao menos considerar aceitável seu uso como hipótese no argumento examinando aqui.

Consideremos agora a tese (2), que defende que duas consciências podem se acoplar quanticamente, em um “estado emaranhado”, mesmo estando separados a uma grande distância. O que significa isso? Qual a implicação disso?

“Emaranhamento” designa um estado quântico muito especial, envolvendo duas ou mais partículas, que não tem contrapartida na Física Clássica.

Já estudamos esse estado nos textos, “Teorema de Bell para Crianças”, e “Teste Experimental do Teorema de Bell”.

É como se essas duas partículas mantivessem uma certa unidade, ou uma certa simetria, mesmo que separadas a grandes distâncias.

Para entendermos um pouco dessa propriedade, consideremos um caso simples propiciado pela situação de “anticorrelação perfeita”, na figura abaixo.

Vemos que um par de partículas foi emitido da posição O, passa por imãs de Stern-Gerlach orientados na mesma direção a, e é finalmente detectado.

Na figura, a partícula da esquerda (de número 1) foi detectada em cima, fornecendo o resultado I = +1, enquanto que a partícula da direita (de número 2) foi detectada em baixo, com resultado II = –1, oposto ao da outra partícula.

A anticorrelação perfeita exprime o fato de que estes resultados são sempre opostos, ou seja, o produto dos resultados é I . II = –1. Se o resultado da esquerda tivesse sido diferente, o da direita também seria.

Até aqui, este comportamento não é estranho, podendo ocorrer com partículas clássicas que obedecem a um princípio de conservação.

O que é sui generis, no caso quântico, é que este comportamento se verifica para qualquer orientação a dos aparelhos de Stern-Gerlach!

Ou seja, mesmo depois que o par de partículas foi emitido em O, o cientista pode colocar rapidamente os dois aparelhos em qualquer orientação que ele queira (com a mesma orientação para o par de aparelhos), e o que se observará será a anticorrelação perfeita.

Essa propriedade de anticorrelação perfeita para todos os ângulos não pode ser obtida classicamente.

Em 1964, John Bell generalizou este resultado, mostrando que “teorias realistas locais” não conseguem dar conta dos resultados estatísticos de experimentos quânticos.

Ou seja, se supormos que é real a onda quântica que sofre colapsos, este colapso terá que ser instantâneo e não local.

Será que um semelhante estado emaranhado pode ocorrer para cérebros humanos, ou entre mentes humanas, como defende a tese (2)? Será que isso poderia explicar as controvertidas alegações parapsicológicas de telepatia?

Não há a menor evidência científica de que cérebros possam se acoplar em um estado emaranhado.

Mesmo que a tese (1) seja verdadeira, e que partes restritas do cérebro pudessem entrar em uma superposição quântica, não há mecanismo concebível, de acordo com a física atual, que levasse a um acoplamento e consequente emaranhamento entre cérebros de diferentes pessoas, em situações do cotidiano.

Única saída

A única saída para o místico quântico seria postular que uma mente humana quântica transbordasse para fora do cérebro material, estabelecendo assim um acoplamento com uma outra mente, que sairia do cérebro de outra pessoa.

Mas a essa altura já nos distanciamos demais da ciência aceita atualmente, e entramos no terreno da especulação metafísica.

Sem qualquer evidência concreta de que tal fenômeno ocorra, salvo alegações controvertidas de que a telepatia foi medida em experimentos controlados, podemos considerar essa tese um dos pontos mais frágeis do argumento místico quântico.

A tese (4) usada no argumento místico quântico diz que, no processo de medição, a vontade do experimentador pode escolher se um fenômeno quântico é corpuscular ou ondulatório, mesmo depois que o objeto quântico já tenha entrado na aparelhagem experimental.

Este “experimento de escolha demorada” foi proposto pela primeira vez por Carl von Weizsäcker em 1931, baseado na descrição teórica do “microscópio de raios gama”, usado por seu orientador, Werner Heisenberg, para derivar o princípio de incerteza quântico.

Um experimento semelhante pode ser ilustrado com o par de partículas emaranhadas da figura acima.

Se a partícula número 1 for encontrada no detector de cima (ou de baixo), dizemos que após o experimento ele tem “spin” na direção +z (ou –z).

Devido à anticorrelação perfeita, a partícula número 2 terá respectivamente spin na direção –z (ou +z). Por outro lado, já mencionamos que a anticorrelação perfeita se mantém para todas as direções em que o aparelho é colocado.

Girando ambos os aparelhos, de forma que eles fiquem fora do plano da página, eles estarão orientados na direção x.

Os possíveis resultados para as medições de spin são análogos ao caso anterior, só que agora uma medição na partícula 1 que fornece spin +x (ou –x) corresponderá a um estado final na partícula 2 respectivamente de –x (ou +x).

O ponto agora é que a vontade do cientista, com relação a qual observável ele quer medir na partícula 1 (spin z ou spin x), determina instantaneamente o tipo de estado para a partícula 2 (spin z ou spin x).

Porém, o cientista não consegue controlar o resultado de cada medição, ou seja, no caso de escolha do spin na direção x, não consegue controlar se o resultado será +x ou –x.

Uma situação análoga pode ser obtida em outro tipo de experimento, em que o cientista escolhe se o fenômeno observado é “onda” ou “partícula”.

Em consequência disso, o cientista não pode transmitir informação instantânea para seu colega que mede, à distância, as propriedades da outra partícula.

O primeiro cientista pode escolher medir spin na direção z ou na direção x, mas isso não afetará a estatística de resultados obtida pelo outro cientista.

A demonstração disso é conhecida como “prova de impossibilidade de comunicação superluminosa”, e foi discutida no texto “Astrobigobaldo quer Informação Instantânea”.

Podemos agora aplicar esta análise no argumento místico quântico.

Escolher se o fenômeno associado à partícula distante será corpuscular ou ondulatório, ou se o estado final terá spin z bem definido ou spin x bem definido, não pode gerar nenhuma previsão sobre o resultado da medição efetuada à distância.

Analogamente, mesmo que fosse possível para duas mentes humanas se acoplarem em um estado emaranhado, e que um dos sujeitos pudesse escolher qual observável ele pretende medir, a sua decisão não poderia ser conhecida pelo outro, mesmo após o colapso da onda.

No argumento místico-quântico, a tese (5) pressupõe que incutir energia positiva em um objeto distante seja um estado de coisas distinguível da situação em que uma energia negativa é incutida.

Mas se forem situações distinguíveis, a escolha não poderia ser controlada pela vontade de uma mente à distância, pois, senão, poder-se-ia transmitir informação sobre o estado energético escolhido de maneira instantânea, o que violaria a prova de impossibilidade de comunicação superluminosa.

Além disso, dado que a tese (5) foi elaborada como uma analogia à tese (4), esperar-se-ia que a vontade do sujeito teria que ser exercida modificando alguma parte de um equipamento macroscópico, como um boneco de vodu, e não apenas através do pensamento.

Em suma, a tese (4) do argumento é correta, mas a sua extensão à tese (5) é inaceitável.

Controlar a energia associada a um ambiente ou a outra pessoa resulta em consequências macroscopicamente observáveis, ao contrário do que acontece na tese (4), em que a escolha do observável sendo medido por um cientista em uma partícula de um sistema emaranhado não pode ser descoberto pelo cientista medindo a outra partícula.

Em conclusão, o argumento místico quântico associado ao livro O Segredo falha principalmente em dois pontos, que chamamos de tese (2) e (5): mentes humanas não podem se acoplar quanticamente em um estado emaranhado, e mesmo se pudessem, uma não poderia controlar atributos macroscópicos da outra.

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