Física Quântica 52 - Interpretação de Histórias Consistentes
Interpretação de Histórias Consistentes
por Osvaldo Pessoa Jr.
Foi lançado no final de 2010 um livro intitulado Teoria e Interpretações da Mecânica Quântica, de Nelson Pinto Neto, físico do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas.
O livro é dirigido para alunos de física que já conheçam a mecânica quântica, apresentando de maneira rigorosa, e ao mesmo tempo didática.
Quatro das grandes interpretações da teoria quântica que têm sido bastante pesquisadas nas últimas décadas:
- a teoria de de Broglie-Bohm;
- a interpretação dos vários mundos;
- o modelo dos colapsos espontâneos e
- a interpretação das histórias consistentes, que examinaremos neste texto.
O livro apresenta as principais questões relacionadas aos fundamentos da teoria, cobrindo também outras interpretações.
Termina com uma discussão sobre as aplicações da teoria quântica à cosmologia, que o autor analisa, de maneira original, segundo a teoria da onda piloto de de Broglie-Bohm.
O livro é muito bom e contribuirá para que os físicos brasileiros se convençam de que há várias interpretações diferentes e plausíveis que dão conta dos fenômenos quânticos. Quais delas são as melhores? Só o tempo dirá.
A interpretação das histórias consistentes foi proposta por Robert Griffiths em 1984, e posteriormente incorporada em uma ambiciosa teoria cosmológica por Omnès (1988) e Gell-Mann & Hartley (1990), que juntaram o conceito de história consistente com o de decoerência, “A fronteira entre o quântico e o clássico”).
Aqui enfocaremos apenas a abordagem de Griffiths, que se aplica somente para as medições feitas em laboratório, e não para processos envolvendo o universo como um todo.
Diz-se que um sistema tem uma “propriedade” quando existe uma medição que fornece um resultado certo (com probabilidade
1). Por exemplo, um átomo pode ser preparado em um estado de spin-1⁄2 que aponta na direção e sentido +z: isso corresponde à propriedade de “spin na direção +z”, pois há uma medição, com o aparelho de Stern-Gerlach (que vimos no texto 6) orientado na direção +z, que fornece um resultado único (ver figura abaixo): detecção em D2.
No instante t1, após a primeira medição, a partícula “colapsou” para o estado com a propriedade de “spin na direção +z”, e o primeiro aparelho registra este evento passando para o estado Z +. O estado total agora é representado por A = |+z> Z + X0.
Por fim, o átomo passa pelo segundo aparelho e ele acaba sendo registrado com “spin na direção –x”, colocando este aparelho no estado macroscópico X–. O estado total ao final é F = |–x > Z+ X–.
Temos assim uma história, representada pelos estados totais D ? A ? F, que é “consistente”, ou seja, ela é aceitável dentro da teoria quântica.
A história DAF é aceita nas interpretações usuais da mecânica quântica, em que a medição é considerada um processo irreversível.
Há duas consequências importantes desta hipótese de que o sistema é fechado.
A primeira é que é aceitável descrever o aparelho de medição em uma superposição de estados.O estado em t1 seria então descrito por: (1/?2) ( |+z> Z+ X0 + |–z> Z– X0 ).
A segunda consequência, da hipótese de que o sistema pode ser considerado fechado, é que preserva-se a simetria temporal, e pode-se considerar a evolução do sistema do estado final F de volta para o estado inicial D. Assim, pode-se definir um estado B, no instante t1, no qual a partícula está no estado |–x>, conforme a figura abaixo.
Outro exemplo de história consistente é DABF, onde se supõe que a situação A precede temporalmente B. Já a história DBAF é inconsistente, e deve ser rejeitada.
Bernard d’Espagnat (1989) criticou a interpretação das histórias consistentes, pelo fato de ela admitir que A é verdadeira, B é verdadeira, mas “A e B” não é verdadeira.
A interpretação de Griffiths é uma das mais belas interpretações da teoria quântica, devido à sua simplicidade e manutenção das simetrias quânticas, analisando diferentes situações de maneiras por vezes inesperadas.
uma vez finalizado o experimento, podem-se associar diferentes quadros (famílias de histórias consistentes) ao experimento, de maneira mais ampla do que fez Niels Bohr com sua interpretação da complementaridade.
Em um texto vindouro, esclarecemos um pouco melhor esta última afirmação, analisando o interferômetro de Mach-Zehnder à luz da interpretação das histórias consistentes de Griffiths.
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