Física Quântica 51 - Os Neutrinos
Os Neutrinos
por Osvaldo Pessoa Jr.
"Será que nossa alma é feita desses neutrinos frios? Será que eles formam um “campo quântico” que permeia nosso corpo e afeta nossa saúde? Não há nenhuma evidência científica disso, são apenas especulações fantasiosas, tão comuns nos livros de misticismo quântico"
"Os neutrinos foram propostos teoricamente em 1930 por Wolfgang Pauli, como forma de satisfazer o princípio de conservação de energia, quando um núcleo radioativo emite um elétron (chamado radiação beta), convertendo um nêutron em um próton.
“Neutrino”, nome dado pelo italiano Enrico Fermi para esta partícula sem carga elétrica, significa simplesmente neutrinho"
Dentre as dezenas de livros que exploram o misticismo quântico, há um escrito por Victor Mattos, intitulado Medicina quântica (Editora Corpo e Mente, Curitiba, 2001):
“[...] está em pleno desenvolvimento a medicina quântica integral com sua metodologia holística de abordagem do ser humano como um todo, dentro de uma totalidade, como um universo dentro de outro mais abrangente: o universo cósmico” (p. 34).
Tal abordagem não é levada a sério pela ciência estabelecida, e a única justificativa para uma medicina quântica seria que suas técnicas agem por “efeito placebo” (ver texto , “Naturologia, Teoria Quântica e o Efeito Placebo”).
Uma ideia curiosa apresentada nesse livro é que nosso
corpo seria afetado por campos de “neutrinos”:
“O organismo humano possui um campo quântico, formado por subpartículas atômicas denominadas neutrinos.
À primeira vista, isso parece uma afirmação estranha e fantasiosa, mas pode ser comprovada, e o estudo acurado da física quântica fornecerá os subsídios teóricos necessários ao seu entendimento.
As características desse campo quântico podem ser assim resumidas em três características principais: 1) É monopolar [...] 2) O campo é predominantemente neutrínico [...] 3) O campo neutrínico não interage com campos eletromagnéticos” (p. 60).*
Não há dúvidas de que se trata de uma
afirmação estranha e fantasiosa!
Os neutrinos foram propostos teoricamente em 1930 por Wolfgang Pauli, como forma de satisfazer o princípio de conservação de energia, quando um núcleo radioativo emite um elétron (chamado radiação beta), convertendo um nêutron em um próton.
“Neutrino”, nome dado pelo italiano Enrico Fermi para esta partícula sem carga elétrica, significa simplesmente neutrinho.
Uma excelente introdução a esse assunto é o livro de Maria Cristina Abdalla, O discreto charme das partículas elementares (Editora Unesp, 2004).
Quando o neutrino encontra um antineutrino, eles se aniquilam, gerando uma partícula virtual (não observada) que é convertida em outro par de partículas. Por outro lado, dois neutrinos nunca ocupam o mesmo estado (por causa de seu spin-½).
Os neutrinos são muito difíceis de observar, pois não interagem eletricamente com nada. Eles só foram detectados em 1956, por Clyde Cowan, Frederick Reines e colaboradores.
A figura abaixo é uma imagem raríssima de um neutrino, obtida em 1970 (figura fornecida pelo Argonne National Laboratory).
O neutrino não deixa trajetória, mas ele colide com um próton (no centro do círculo amarelo), desaparece, e gera duas outras partículas, além do próton: um píon e um múon.
A curvatura das trajetórias indica a carga das partículas (próton e píon positivos, e o múon negativo).
O neutrino é uma partícula da família dos “léptons”, que inclui também o elétron. O elétron já é bem pequenino, sendo quase 2000 vezes mais leve que o próton. O neutrino, por sua vez, é em torno de 1 milhão de vezes mais leve que o elétron.
O par elétron-neutrino forma a primeira “geração” de léptons, mas há gerações mais pesadas: o múon (descoberto em 1937) e seu neutrino (1962), o tau (1975) e seu neutrino (2000).
O Sol é uma grande fonte de neutrinos, e para detectá-los é preciso construir imensas câmaras cheias de água, como o da figura abaixo, o Observatório Sudbury de Neutrinos, no Canadá (foto obtida da Wikipédia), de 12 metros de diâmetro, e cercado por 9600 detectores de luz.
Como os neutrinos passam pela matéria ordinária quase sem interagir, como se ela fosse transparente, tais observatórios são construídos a um ou dois quilômetros abaixo da superfície, de forma a bloquear outras partículas, com exceção dos neutrinos.
Neutrinos são gerados por estrelas (como o Sol), por materiais radioativos, e também prevê-se a existência de neutrinos remanescentes do Big Bang, que se movem a velocidades baixas (são frios) e não são detectáveis com a tecnologia atual.
Nesse momento, haveria em torno de 20 milhões de neutrinos frios dentro do seu corpo!
Será que nossa alma é feita desses neutrinos frios? Será que eles formam um “campo quântico” que permeia nosso corpo e afeta nossa saúde?Não há nenhuma evidência científica disso, são apenas especulações fantasiosas, tão comuns nos livros de misticismo quântico.
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*Deparei-me com as teses de Victor Mattos ao ler um artigo de Thaís Rafaela Hilger, Marco Antonio Moreira & Fernando Lang da Silveira, “Estudo de representações sociais sobre física quântica”, Revista Brasileira de Ensino de Ciência e Tecnologia 2 (2009), disponível na internet.
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