Física Quântica 44 - Budismo e Física Quântica
Budismo e Física Quântica
por Osvaldo Pessoa Jr.
Caiu em minhas mãos o livro Buddhism and Science: Breaking new ground [Budismo e ciência: Abrindo novos caminhos] (Columbia University Press, 2003), editado por B. Alan Wallace, autor de outros livros na interface budismo/ciência.
Quinze artigos discutem diferentes aspectos da relação entre ciência e budismo, começando com uma excelente introdução de Wallace, que salienta alguns aspectos gerais da visão de mundo budista.
O budismo surgiu em meio às antigas tradições védicas na Índia, em torno do séc. V a.C., propondo um “caminho do meio” de moderação entre a luxúria e as práticas ascéticas extremas.
Como as outras tradições místicas do hinduísmo e do jainismo, o budismo se baseia em técnicas de meditação que combatem o sofrimento humano, causado pelo desejo, e que promovem o autoconhecimento.
O que distingue a visão de mundo budista é a concepção de que nada no mundo é permanente, e o “eu” individual não existe.
O que haveria é uma nuvem de eventos momentâneos que formam complexos que identificamos como uma coisa ou como o eu. Não há assim a noção de uma alma individual e eterna que transmigraria de uma vida para outra.
Os budistas acreditam em um ciclo de nascimento e morte, e a ligação seria feita por leis de causa e efeito (e não pela permanência de uma alma), chamados “carma”, onde boas ações levariam a bons retornos.
O renascimento poderia se dar em cinco ou seis reinos diferentes, um dos quais é o dos homens. O ciclo cessaria ao se atingir a liberação final do “nirvana”.
O budismo considera que certas perguntas metafísicas não têm resposta, como se o Buda continuou existindo após a morte ou qual a origem do Universo.
Valorizam também as atitudes morais da benevolência (bondade amorosa, ou querer que os outros sejam felizes), compaixão (desejo de livrar os outros de sofrimento), alegria simpática (alegria pela felicidade dos outros) e equanimidade (serenidade de espírito e considerar todos os seres como iguais).
As três principais tradições budistas hoje em dia são a Theravada (mais antiga, hoje centrada em Sri Lanka e no Sudeste Asiático), a Mahayana (originada em torno do no séc. II, e presente no Leste Asiático, incluindo China, Coréia, Vietnã.
O zen budismo do Japão combinaria esta tradição com elementos do taoísmo) e a Vajrayana (derivada da Mahayana e presente no Tibete e Ásia Central).
Na Antiguidade, antes da ascensão da Mahayana, havia 18 escolas budistas, cujas doutrinas eram condensadas em textos conhecidos como Abhidharma, que apresentam detalhadas descrições do mundo físico e do mundo psicológico.
Darmas mentais e físicos
No livro em questão, William J. Ames, mestre em física e doutor em estudos budistas, apresenta uma exposição de duas doutrinas budistas distintas, buscando compará-las com as físicas clássica e quântica.Pelo fato de os darmas serem considerados reais, Ames chama a cosmovisão apresentada nos Abhidharma de “realista”, e a aproxima da Física Clássica, que também buscaria analisar a realidade em termos de partes simples, como partículas e forças.
A concepção ocidental que mais se aproxima dos textos do Abhidharma é a filosofia empirista radical do escocês David Hume (séc. XVIII), desenvolvida no século seguinte pelo físico Ernst Mach e por filósofos britânicos.
Em suma, podemos concordar com Ames de que é possível interpretar a Física Clássica de maneira próxima ao budismo do Abhidharma, mas uma concepção “realista” da Física Clássica, que postula a existência de entidades inobserváveis (como átomos, espaço absoluto ou éter luminífero, no séc. XIX), não tem paralelos no budismo.
A argumentação de Ames, porém, segue outra linha. Para fazer uma aproximação com a Física Quântica, ele escolheu outra escola budista, da tradição Mahayana, que é a escola Madhyama, fundada pelo grande filósofo Nagarjuna em torno do séc. II.
Enfim, para a escola Madhyama, não haveria propriedades intrínsecas às coisas, mas todas as propriedades seriam relacionais, dependentes das relações entre os darmas.
Dalai Lama: Ciência X Budismo
Voltando ao livro em questão, um dos nomes mais importantes da área de fundamentos da física quântica, Anton Zeilinger, apresenta um relato do encontro entre um grupo de cientistas e de budistas com Tenzin Gyatso, o 14º Dalai Lama (de uma das cinco escolas da tradição Vajrayana do Tibete), em 1998.David Finkelstein, nome importante e radical dos fundamentos lógicos da física, apresenta um artigo intitulado “Vazio e Relatividade”, que parte de uma explicitação do conceito de “vazio” para o budismo, que seria a tese de que tudo é relativo, de que não há entidades absolutas no Universo.
Semelhanças entre a visão do mundo budista e a física moderna
- O uso de lógicas não clássicas.
- O mundo visto como padrão de eventos de destruição e criação.
- Concepção atomizada do tempo (haveria uma unidade mínima de tempo, às vezes chamada “crônon”).
- Holismo ou não decomponibilidade do mundo.
- A incompletude de qualquer representação do mundo.
Bitbol é bem conhecido por reavivar a tradição de interpretações neokantianas da mecânica quântica, esboçada na década de 1930 por Ernst Cassirer, Grete Hermann e Carl von Weizsäcker.
Salientando porém que a teoria quântica não deve ser vista como “representando” os fenômenos, mas sim como fornecendo “instrumentos” para agir na realidade fenomênica (uma postura mais pragmática).
No Brasil
No Brasil, a filósofa Patrícia Kauark Leite (UFMG) segue esta tradição neokantiana na mecânica quântica.Em segundo lugar, aplicando a lógica dialética, de raciocinar a partir de opostos, para a antinomia entre determinismo e indeterminismo na física quântica (lembrando que nenhuma dessas duas posições pode ser provada).
O livro apresenta também uma série de artigos comparando noções psicológicas ocidentais com aquelas do budismo, incluindo os estados atingidos através da meditação.
Outro ponto, expresso nos textos Avatamsaka do Budismo Mahayana, e também nos tantras do Budismo tibetano, é a concepção de uma teia cósmica de relações mútuas entre todas as partes do Universo.
Para finalizar esta breve comparação do budismo com a física quântica, vale mencionar o caso de um físico brasileiro que abandonou a carreira científica para se tornar mestre budista.
http://www.cebb.org.br/images/stories/docs/ciencia_mente_lama_padma_samten_univ_sao_marcos.pdf .
Para ele, o que aproxima a física quântica do budismo é o fato de que o observador não pode ser separado dos fenômenos observados.
Busca de paralelos
Para concluir, gostaria de tecer um comentário sobre a busca de “paralelos” entre as tradições místicas orientais e a física moderna, para usar a expressão de Capra.Quanto às teses testáveis, às vezes uma concepção filosófica antiga pode afirmar algo que é aceito hoje em dia pela ciência, como que existem átomos (Demócrito) ou que o Universo se iniciou em uma grande explosão (Empédocles).
Voltar para Física Quântica Dezenas de Interpretações

Comentários