Física Quântica 42 - Teste Experimental do Teorema de Bell
Teste Experimental do Teorema de Bell
por Osvaldo Pessoa Jr.
No “Teorema de Bell para Crianças”, apresentamos o dilema de Bell, que diz que qualquer interpretação da mecânica quântica deve abandonar ou o realismo, ou a localidade (ou os dois).
Mas o que é mesmo “realismo” e “localidade”?
Para esclarecer isso, vamos considerar o experimento usado para testar o teorema de Bell, usando luz. No regime quântico, a luz é detectada de forma pontual, com energia discretizada, e a esses eventos de detecção se dá o nome “fótons”.O experimento em questão detecta pares de fótons, e mede sua “polarização”.
Para quem não sabe, a polarização é a direção em que uma onda transversal oscila: por exemplo, uma marola (onda bem pequena) no mar é polarizada verticalmente, pois quando uma marola passa por um surfista, ele oscila com sua prancha na direção vertical.
Polarização é um caso particular de “spin”. O esquema do experimento está na figura abaixo.
Um par de pacotes de onda é gerado no centro, e eles levarão à detecção simultânea de um par de fótons (indicados por I e II). Cada pacote passa por um prisma birrefringente que separa a luz em polarizações perpendiculares.
O pacote da esquerda passa por um prisma orientado na direção a, de forma que a luz detectada com valor +1 (em cima) tem polarização “a”, e a detectada com valor –1 tem polarização “a + 90°” (ou seja, é ortogonal).
Para uma partícula individual, a probabilidade de cada um desses resultados é ½ , e o resultado é imprevisível.
O pacote de onda que ruma para a direita passa por um prisma orientado em outra direção, b, contida no plano perpendicular à direção de propagação da luz.
O estado quântico do par de pacotes de onda carrega todo o mistério do problema, e é dito um estado “emaranhado” ou “entrelaçado”.
Para entender porque ele é misterioso, considere o caso em que a = b (ou seja, os dois prismas estão orientados na mesma direção).
Para um determinado estado emaranhado, podemos ter uma “anticorrelação perfeita”. Isso significa que sempre que o valor medido de I for +1, o de II será –1 (e sempre que o valor de I for –1, o de II será +1).
Até aqui tudo bem, esta é uma situação facilmente explicável pela física clássica. O mistério surge do fato de que esta anticorrelação perfeita ocorre para qualquer valor do ângulo a!
Falando assim pode parecer trivial, mas não é.
Este estado emaranhado tem “simetria rotacional”: antes da detecção, as polarizações das duas partículas são ortogonais, mas elas não apontam numa direção definida! (Esta simetria, por sinal, é a situação dos dois elétrons no átomo de hélio.)
O teorema de Bell (1964) explora esta simetria inusitada de sistemas quânticos de duas partículas (ou dois pacotes de onda). Ele quis mostrar que a física clássica não explica o comportamento de estados quânticos emaranhados.
Schrödinger (1935) e Furry (1936) já tinham mostrado as dificuldades da física clássica para explicar o experimento de anticorrelação com a = b, e Bohm & Aharonov (1957) mostraram que um experimento realizado por Wu & Shakhov em 1950 favorecia as previsões da física quântica, em detrimento da clássica.
Mas Bell encontrou uma maneira diferente de atacar o problema, e seu resultado acabou sendo mais geral do que esses estudos anteriores.
Para testar o teorema de Bell, é preciso utilizar prismas orientados em ângulos diferentes, ou seja, a diferente de b.
Além disso, não basta realizar o experimento com um par de orientações (a, b), mas é preciso considerar também outros pares de ângulos, por exemplo (a, b’), (a’, b), (a’, b’).
Ou seja, para testar o teorema de Bell é preciso (neste caso) efetuar quatro séries de experimentos diferentes, e supor que o estado quântico em cada caso é o mesmo.
Esta suposição faz parte de um conjunto de hipóteses usadas nos testes experimentais do teorema de Bell, e que recebem o nome de “indução” ou “amostragem justa”.
Voltemos agora para o trabalho original de Bell, para entender como ele incorporou as hipóteses de “realismo” e “localidade”, que juntos com a “indução” (mencionada no parágrafo anterior) formam o trilema de Bell.
Não era “dilema”? Sim, mas a indução é geralmente desprezada, e é por isso que Leggett se referiu a ela como “a Cinderela de todo esse assunto”.
Realismo
No trabalho de 1964 de Bell, “realismo” significa que o resultado de qualquer medição quântica é pré-determinado, mesmo que nós tenhamos a impressão de que os resultados sejam aleatórios.
Localidade
Agora ficou fácil definir “localidade”. Este conceito designa a situação em que o resultado obtido para a partícula da esquerda não depende da escolha de orientação do prisma da direita.Na demonstração feita por Bell, a hipótese da localidade permite que o valor I(a,b,v) seja identificado com I(a,b’,v), já que ambos são iguais a I(a,v).
Os testes experimentais que começaram a ser feitos a partir de 1969 buscavam justamente obter experimentalmente um valor acima de 2 (ou abaixo de –2).
Outros experimentos foram realizados, sendo que o ponto alto foi a versão realizada em Orsay, na França, por Aspect, Grangier & Roger, em 1982, na qual a orientação dos polarizadores era modificada após o par de partículas ter sido emitido.
Em Genebra, experimentos coordenados pelo físico Nicolas Gisin, a partir de 1998, conseguiram verificar a violação da desigualdade de Bell para pares de fótons separados a mais de 18 km!
No experimento do grupo de Alain Aspect, a escolha das orientações dos prismas não era feita de maneira aleatória.
Mesmo assim, há físicos que conseguiram construir teorias de variáveis ocultas locais que violam alguma suposição feita nos experimentos, mas que conseguem explicar os resultados obtidos.
Tais situações são chamadas de “furos” (loopholes) dos testes da desigualdade de Bell. Esses furos são bem pequenos, e quase ninguém acredita que eles sejam sérios.
O que alguns físicos têm afirmado é que um outro tipo de desigualdade, proposta por Anthony Leggett, mostraria que o dilema de Bell (“ou descartar o realismo, ou a localidade, ou ambos”) é muito fraco, pois na verdade seria preciso descartar o realismo como um todo.
Um teste experimental foi realizado em 2007 por Gröblacher e colaboradores, e o resultado é muito interessante, mas ainda é possível defender uma interpretação realista da teoria quântica, desde que ela seja não local (como a teoria de Bohm, “A Interpretação da Onda Piloto”.
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