Física Quântica 21 - Fronteira Entre o Quântico e o Clássico
Fronteira Entre o Quântico e o Clássico
por Osvaldo Pessoa Jr.
“Ora, se nós somos feitos de átomos, e os átomos têm comportamento quântico, nós também somos quânticos! Se os átomos podem estar em dois lugares ao mesmo tempo, nós também podemos!
Se os cientistas provaram que há computação quântica para sete átomos, então nosso cérebro é um computador quântico! Se dois átomos distantes podem ficar em sincronia, duas pessoas também podem!
A consciência cósmica deve estar baseada nesse emaranhamento de partículas quânticas!”
Concepções como essas são comuns hoje em dia, mas elas não levam em consideração uma questão que ainda hoje não é perfeitamente compreendida pela ciência: a fronteira entre o mundo quântico e o mundo clássico.
A figura abaixo, feita por Michael Ramus, apareceu em um artigo de W.H. Zurek, na revista Physics Today de outubro de 1991.
Do lado direito, está o país clássico, aquele que nós conhecemos, onde uma cerca permanece parada em um único lugar, e os caminhos no chão são bem definidos.
À esquerda, o país quântico, que é difícil de representar de maneira pictórica. Ali, tudo aparece em forma de pontinhos, vemos o caminho no chão oscilando como uma onda, e vemos um gato que está numa superposição de vivo e morto.
Para atravessar a fronteira, o habitante do mundo clássico precisa utilizar um aparelho de medição, única via de acesso para o mundo quântico!
Nas décadas de 1980 e 90, avançou-se bastante na compreensão desta fronteira entre o clássico e o quântico, por meio da noção de “decoerência (ou descoerência) induzida pelo ambiente”.
Houve inclusive um brasileiro envolvido nesses avanços teóricos, o Amir Caldeira, da Unicamp. Para descrever mais ou menos o que diz essa teoria, farei uso de uma alegoria com átomos.
Amir e Bibi
Um certo átomo, chamemo-lo de Amir, vive isolado em sua casa, sem ser incomodado por ninguém.
Amir e Bibi moram juntos, isolados do mundo externo, mas este isolamento nunca é completo.
Amir e Bibi vivem felizes, alheios ao que pensam os cientistas, mas aí estes manipuladores de corpúsculos resolvem que os dois merecem ter uma família, e começam a adicionar um monte de outros átomos, Clara, Dodô, Elza, ... um para cada letra do alfabeto.
Mas este processo de impor às crianças um comportamento rígido, em função de uma “base” escolhida pelo ambiente escolar (outra base poderia ser escolhida, se o ambiente fosse outro), só pode ser feito através de sucessivos empurrões nos miúdos átomos.
Alegoria
Essa, então, é uma versão alegórica da história que nos contam os físicos quânticos, para explicar o que é a “decoerência induzida pelo ambiente”.
Assim, a noção de decoerência não resolve todos os problemas relacionados com a fronteira entre o quântico e o clássico, mas ela indica em que condições um fenômeno tipicamente quântico é borrado, e passa a se comportar classicamente.
Aspectos holistas e mundo quântico
Os aspectos holistas do mundo quântico seduzem os místicos, que gostariam que esses aspectos fundassem cientificamente o holismo que envolveria as almas humanas.
Mas, em primeiro lugar, a pretensa união entre as almas ou a ligação entre as partes do cérebro poderia muito bem ser compreendida dentro do mundo clássico, onde há um limite para a velocidade de propagação de informação.
Em segundo lugar, o grande mistério da consciência é a explicação científica das qualidades que vivenciamos subjetivamente na percepção, na memória, no sentimento, na emoção, na compreensão.
Se algum dia houver uma teoria científica das qualidades mentais, ela terá que envolver menção a essas qualidades. A teoria quântica não faz isso! A teoria quântica descreve átomos mais ou menos bem isolados.
O mistério científico da consciência deve ser de outra ordem, envolvendo talvez princípios ainda desconhecidos que se tornem importantes na escala das grandes moléculas.
Tais princípios deverão ser consistentes com a física quântica, mas a chave científica do mistério da consciência não pode estar em noções como colapso ou emaranhamento, que são princípios quantitativos, e não envolvem qualidades.
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