Física Quântica 19 - Naturologia, Teoria Quântica e o Efeito Placebo
Naturologia, Teoria Quântica e o Efeito Placebo
por Osvaldo Pessoa Jr.
O termo “naturologia” se refere ao campo de práticas terapêuticas que não se enquadram na medicina alopática ou nas linhas clássicas de psicanálise e psicoterapia.
Também utilizam de plantas medicinais, de técnicas terapêuticas tradicionais do Oriente, e de técnicas mais recentes que se caracterizam por não serem invasivas, como a iridologia, fitoterapia, aromaterapia, etc.
Segundo alguns naturólogos, o objetivo não é “curar” doenças, mas sim promover o bem-estar e o equilíbrio da pessoa com seu ambiente.
"Parece-me que uma estratégia argumentativa que poderia ser adotada pelos profissionais da naturologia, possivelmente aliada a outros argumentos, é justamente a de que parte do sucesso da naturologia (ou mesmo todo o seu sucesso) provém da comprovada eficácia do efeito placebo"
Olhando de fora, como leigo no assunto, imagino que essas práticas terapêuticas “funcionem”, já que a área tem se expandido e os relatos dos “interagentes” (termo que às vezes substitui o “paciente”) costuma ser positivo.
Há atualmente dois cursos superiores em naturologia no Brasil, na Universidade Anhembi-Morumbi, em São Paulo, e na Unisul, na região metropolitana de Florianópolis.
Em maio de 2008, foi realizado o I Congresso Brasileiro de Naturologia, em São Paulo. Porém, a profissão de naturólogo enfrenta dificuldades para ser regulamentada. Por quê?
Basicamente, a questão é que as teorias usadas para justificar a naturologia não são consideradas científicas pela ciência estabelecida, e as evidências experimentais em favor da eficácia das terapias alternativas não são muito melhores, aos olhos da ciência ortodoxa, do que a eficácia do chamado “efeito placebo”.
Um exemplo da posição científica ortodoxa é o texto “Naturebologia”, facilmente encontrado na web, e escrito pelo físico Leandro Tessler, em um blog sobre Cultura Científica.
Analogias e comprovação científica
Boa parte das explicações dadas às terapias alternativas envolve analogias criativas.
Por exemplo, em um artigo do Jornal Hoje de 28/02/2002, argumenta-se que a cromoterapia teria base científica, pois “a cor violeta contribui para a recuperação das pessoas que têm câncer porque ela é rica em potássio, e a cor vermelha ajuda pessoas que estão com anemia”.
Esse tipo de raciocínio por semelhança (ou analogia) sempre foi forte na tradição científica do “naturalismo animista” (ver o texto “O que é a Ciência Ortodoxa?”), na qual a naturologia se insere.
É verdade que as analogias são muito importantes na formulação de hipóteses científicas, mas tais analogias precisam ser submetidas a testes experimentais bem controlados para que sejam consideradas “científicas”.
Muitos autores preocupados em fornecer uma base teórica para a naturologia argumentam que ela é justificada pela física quântica.
Porém, é muito difícil explicar o relativo sucesso das técnicas de naturologia com base na teoria quântica.
A física quântica se aplica bem para átomos e moléculas, mas os efeitos quânticos acabam sendo apagados quando há muitas partículas interagentes, como é o caso do nosso corpo.
Mesmo o computador quântico, que é uma ideia espetacular desenvolvida nos últimos 25 anos, só pode funcionar para poucas partículas isoladas a baixas temperaturas (até agora, o único computador quântico real que foi construído tinha só sete partículas).
Existem muitos autores que defendem que haja uma “física quântica da alma”, ou uma psicologia genuinamente quântica, mas tais teorias não têm aceitação entre os cientistas ortodoxos.
Os experimentos citados em defesa dessa extensão da física quântica para o domínio humano não são levados a sério pela ciência estabelecida.
Assim, não é argumentando a partir da física quântica que a naturologia conquistará a aceitação das sociedades médicas e científicas.
Sucesso da naturologia e efeito placebo
Parece-me que uma estratégia argumentativa que poderia ser adotada pelos profissionais da naturologia, possivelmente aliada a outros argumentos, é justamente a de que parte do sucesso da naturologia provém da comprovada eficácia do efeito placebo.
A compreensão deste efeito se fortaleceu na década de 1970, quando se comprovou cientificamente que há uma ligação íntima entre os nossos sistemas neurológico e imunológico, num campo hoje conhecido como “neuroimunomodulação”.
O efeito placebo não deveria funcionar se o paciente souber que o remédio ingerido é inócuo (apesar de efeitos não-específicos ainda poderem atuar).
Teoria científica por trás do efeito placebo
A teoria científica que está por trás do efeito placebo não é a física quântica, mas sim áreas da fisiologia celular e da bioquímica clássicas, que constituem o campo da neuroimunomodulação.Porém, conforme mencionado acima, o comportamento “essencialmente quântico” que ocorre no nível dos átomos, envolvendo a dualidade onda-partícula (ou o colapso da onda quântica), acaba ficando “borrado” ou “diluído” na escala celular, tornando-se imperceptível neste nível.
Mas ainda há grandes mistérios científicos envolvendo o funcionamento de nosso sistema nervoso, e uma explicação mais completa do efeito placebo é um desses mistérios. Talvez a naturologia possa contribuir para um esclarecimento desta questão.
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