Física Quântica 14 - O Que é a Ciência Ortodoxa?
O Que é a Ciência Ortodoxa?
por Osvaldo Pessoa Jr.
"Parece-me que a chamada “ciência ortodoxa” inclui duas posições diferentes: a materialista e a positivista. A ela se opõe uma interpretação mística da ciência, que podemos chamar de “naturalismo animista”, e que tem tido um papel de destaque ao longo de toda história da ciência"
Sou ateu, materialista, e cético em relação à parapsicologia. Tenho fé na ausência de Deus. Minha crença no materialismo é dogmática. Por isso, respeito outros dogmas, outras fés.
Fui educado desta maneira. Lembro-me em cima de um rochedo com meu pai, olhando para o mar, e sentindo a dignidade de encarar a vida e a morte de acordo com as evidências da observação, sem muitos consoladores.
Conversando com colegas místicos, discutindo a metafísica quântica, não é lícito que eu tenha a pretensão de conhecer melhor a verdade do que eles.
Tenho minha visão de mundo, baseada na ciência ortodoxa, e eles têm as deles, baseadas numa interpretação mística dos resultados da ciência.
A única coisa que posso legitimamente fazer – dado que adoto uma postura dogmática com relação ao materialismo – é apontar para meus colegas quais são as posições da ciência ortodoxa, quais são as posições místicas “conciliadoras” com os resultados da ciência, e quais são as posições místicas “desafiadoras” da ciência (ver o texto “O Dilema do Místico”).
Cada um terá que decidir por si só qual é a verdade. Geralmente, a verdade é uma só. Por exemplo: adotando uma definição da palavra “Deus”, ou Deus existe (fora de nossas mentes) ou Deus não existe.
Mas nunca poderemos comprovar uma dessas afirmações, de forma que a aceitação de uma delas terá que envolver uma dose de fé. Ou então, podemos adotar uma postura “agnóstica”: dado que nunca comprovaremos se Deus existe ou não, então é melhor suspendermos nosso juízo com relação a esta questão.
Tal atitude, de evitar nos envolvermos em questões metafísicas, é típica da tradição do positivismo, que marcou a ciência durante muito tempo.
Com este último parágrafo, adiantei uma das respostas à questão que quero analisar no presente texto. E a questão é a seguinte: o que é a ciência ortodoxa?
Quando afirmo que a ciência ortodoxa não aceita, por exemplo, os resultados dos experimentos de Masaru Emoto – que defende que a estrutura cristalina da água é afetada pelas emoções humanas –, a que visão de mundo estou me referindo?
Parece-me que a chamada “ciência ortodoxa” inclui duas posições diferentes: a materialista e a positivista.
A ela se opõe uma interpretação mística da ciência, que podemos chamar de “naturalismo animista”, e que tem tido um papel de destaque ao longo de toda história da ciência, como explicarei mais abaixo. Todas são visões de mundo “naturalistas”.
Há basicamente três grandes pontos de partida para as visões sistemáticas de mundo.
- A abordagem mítica ou religiosa parte do sobrenatural, de Deus ou de diversos deuses com características humanas.
- A abordagem naturalista parte da Natureza, com suas leis e regularidades, e procura explicar tudo, inclusive o homem, a partir das ciências naturais.
- A abordagem humanista ou subjetivista assume que o homem é a medida de todas as coisas, ou então que o ponto de partida do conhecimento é o sujeito pensante, que é anterior à ciência. Esses pontos de vista não são necessariamente excludentes, mas ao longo da história podemos classificar boa parte dos sistemas filosóficos e visões de mundo dentro de uma dessas três classes.
1) Materialismo
Esta é a tese de que tudo o que existe pode ser reduzido a entidades físicas, como matéria, energia, entropia, campos, etc. A alma humana seria fruto da matéria, de forma que, na morte do corpo, desapareceria também a nossa alma.
Boa parte da ciência ortodoxa condiz com esta visão de mundo.
Quando um fisiologista submete um camundongo a um certo estresse, corta-lhe a cabeça e mede a concentração de um hormônio em seu cérebro, ele está atuando de forma condizente com o materialismo, buscando as raízes materiais do comportamento.Podem-se delinear seis grandes fases na história do materialismo:
- o atomismo da Antigüidade greco-romana,
- o materialismo indiano (Carvaka), em parte a filosofia mecânica cristã do séc. XVII (como em Hobbes),
- o iluminismo do século XVIII,
- a ascensão da fisiologia e do evolucionismo no séc. XIX, e
- o realismo “fisicalista” atual (que retoma, na década de 1960,
- o espaço perdido para o positivismo).
2) Positivismo
A abordagem precedente pode ser chamada de “realista”, pois ela tece afirmações sobre como se comporta a realidade não-observável. O positivista, por seu turno, considera que isso é apenas especulação metafísica, e não tem lugar na ciência.
3) Naturalismo animista
Assim como o materialismo, esta visão busca os segredos da Natureza de maneira “realista”, mas – ao contrário dos materialistas, que consideram que esta realidade é inanimada – ela considera que a Natureza é dotada de uma espécie de alma, de uma “força” ou “energia” que a guia e dá sentido às nossas vidas.
No século XIX, o naturalismo animista teve uma certa importância na ciência inglesa e alemã, estando associada ao movimento romântico.

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